quinta-feira, 31 de Julho de 2014

Maior Boga do Mundo no Pico

Ocorrência:
Um exemplar de boga-do-mar (Boops boops) com 1260 g de peso (húmido) e 44,5 cm de comprimento total, foi vendido num supermercado da Madalena do Pico (Compre-Bem) no dia 17 do passado mês de maio. Tratava-se de uma fêmea  que estava em avançado estado de maturação, com gónadas bem desenvolvidas (72 g, correspondendo a índice gónado-somático de 5,7%). 
Boga-do-mar (Boops boops) apanhada no Pico em meados de maio de 2014.


Gónadas femininas (ovas) do mesmo indivíduo


Esta boga tinha sido apanhada na costa da ilha do Pico, nos dias anteriores. Curiosamente este indivíduo não tinha na boca os típicos isópodes parasitas que costumam existir na maioria das bogas.
Comparando esta ocorrência com os dados publicados para esta espécie (máximo de 36 cm), constata-te que este é o maior indivíduo registado em termos mundiais. 

Outras medidas:
Esta boga tinha 42,3 cm de comprimento furcal. A barbatana dorsal tinha 15 raios duros e XII raios moles. A barbatana anal tinha 1 raio duro pequeno, 1 raio duro maior e XV raios moles. 

Para saber mais:

terça-feira, 20 de Maio de 2014

Comer peixe-coelho pode provocar queriorreia


O título anterior está relacionado com o consumo de um grupo particular de peixes marinhos: os escolares. Vejamos então!

Ocorrência:
Um peixe-escolar apareceu à venda em 21-02-2014 na peixaria de um hipermercado da Madalena (da ilha do Pico). Como se tratava de um peixe um pouco diferente dos habituais escolares, foi observado com mais atenção. De facto, tratava-se de um peixe coelho-do-alto (foto 1), também conhecido como escolar-branco ou peixe-coelho (Promethichthys prometheus), com 3,9 kg de peso, que tinha sido apanhado na aurora desse dia pelos Srs Daniel e Bruno Freitas, a cerca de 130 braças de profundidade (~ 240 m), quando pescavam de gorazeira no Baixio da ponta este da Ilha do Pico (~3 milhas náuticas da costa). Este exemplar tinha 87,7 cm de comprimento standard (SL) e 93,6 cm de comprimento total, tratando-se de um exemplar de considerável dimensão para esta espécie, que pode chegar a ter 1 m de SL1. A contagem dos raios das barbatanas (ver tabela) integra-se nos limites indicados para esta espécie.

Foto 1- Peixe coelho-do-alto (Promethichthys prometheus) com 87,7 cm (SL) e 3,9 kg de peso apanhado em 21/04/2014 na ponta este da ilha do Pico (Açores).
Tabela
Contagem dos raios na barbatanas do peixe-coelho apanhado a 21/02/2014 na ponta este da ilha do Pico (Açores).

1º dorsal
2ª dorsal
Anal
Peitorais
Raios duros
18
2
2
0
Raios moles
0
18
15
14

Por observação das gónadas verificou-se que era uma fêmea, em estado de repouso reprodutivo – pós-postura (foto 2). No estômago só se encontrou o isco (pedaço de peixe espada branco). Verificou-se que as escamas apesar de visíveis não são facilmente destacáveis parecendo estar cobertas por uma membrana transparente.
Foto 2- Gónadas do mesmo peixe-coelho da foto 1, podendo ver-se que se trata de uma fêmea (A - vista geral das gónadas; B - pormenor do corte de uma das gónadas, vendo-se os tecidos internos com a aparência típica de pós-postura).  

Registos anteriores:
A ocorrência do peixe coelho-do-alto nos Açores está registada, pelo menos desde 19542, tendo o nome geral de escolar-branco para português3. Em inglês é designado por roudi escolar1, e chega a ter nomes mais populares de “butterfish”, “super white tuna”, “king tuna”, “oilfish” ou ainda como “white escolar”.
É uma espécie cosmopolita demersal que ocorre em todos os oceanos do mundo entre os 80 e 800 m de profundidade (meso-bentopelágico), em zonas temperadas e tropicais.
Ocorrem nos Açores mais 4 espécies de peixes conhecidos pelo nome comum de escolares: Ruvettus pretiosus; Lepidocybium flavobrunneum; Nesiarchus nasutus, e Gempylus serpens. Algumas destas espécies atingem tamanhos bastante maiores ao do coelho-do-alto.

Curiosidades:
Apesar do peixe coelho-do-alto ser comestível é preciso ter cuidado com o seu consumo. É um peixe gordo, extremamente delicioso quando grelhado, pelo que há a tentação de comer demais! O pior vem depois. Como o conteúdo oleoso advém de estéres-cerosos, que o peixe adquire das suas presa e não consegue metabolizar, acaba por as acumular no seu corpo (cerca de 23% do total). No homem estas substâncias não são absorvidas e acabam por provocar diarreias oleosas alaranjadas, que passam praticamente despercebidas, muitas vezes em ocasiões pouco convenientes. Este tipo de diarreia oleosa derivada do consumo destes peixes tem mesmo uma designação específica: queriorreia. Em vários países, este peixe foi considerado tóxico, em resultado destas consequências desagradáveis. Por outro lado, as substâncias cerosas são consideradas como gempilotoxinas, que se assemelham a óleos minerais, mas não são realmente toxinas.
Contudo, caso não se consuma com frequência, não mais de ~120 g de cada vez, e esteja bem grelhado para libertar grande parte da gordura, que não deve ser consumida, acaba por não trazer consequências de maior. De qualquer forma, o peixe coelho do alto parece ser “menos perigoso” em termos alimentares que outras espécies de escolares. 

Agradecimentos:
Aos Sr Daniel Freitas e Bruno Freitas pelas informações dadas relativas à pesca deste peixe. Igualmente se agradece ao Sr. Rui Pires, gerente da peixaria do hipermercado “Compre-Bem”, que amavelmente localizou a embarcação que tinha pescado este exemplar. Um agradecimento também à Dra Angêla Canha do DOP por ter analisado o estado de maturação das gónadas.

Referências:

  1.     Fishbase: www.fishbase.org/summary/5008
  2.        Santos, R.S., F.M. Porteiro & J.P. Barreiros, 1997. Marine fishes of the Azores: annotated checklist and bibliography. Bulletin of the University of Azores. Supplement 1. 244 p.
  3.        Sanches, J.G., 1989. Nomenclatura Portuguesa de organismos aquáticos (proposta para normalizaçao estatística). Publicaçoes avulsas do I.N.I.P. No. 14. 322 p.

Para saber mais:

terça-feira, 18 de Março de 2014

"Legumes do mar" saltam para as suas receitas

Iniciada a época de "caça" à "erva-patinha"na região Açoriana!

    As algas são excelentes fontes de fibra, minerais e nutrientes. São alimentos seguros para saúde. No geral, podem ser utilizadas numa vasta variedade dietética. Estas podem substituir o arroz, batatas assadas e a salada ou serem acrescentadas a sopas, caldos, cozidos e guisados. Alguns destes “legumes do mar” já são consumidos pelos Portugueses, como é o exemplo do consumo de “erva patinha”/ “erva do calhau” e “esparguete da costa” na região Açoriana.

    Para muitos, as algas são pouco peculiares no cardápio humano sendo muitas vezes associadas a regimes culinários e astronómicos de zonas orientais. Por serem ricas em proteínas, fibras, minerais, lípidos, hidratos de carbono, vitaminas, ferro, iodo (mineral essencial ao correcto funcionamento da tiróide) e antioxidantes são hoje em dia cada vez mais procuradas pelos cozinheiros e pessoas que procuram uma receita alternativa e nutritiva. A ação dos ingredientes ativos presentes nas algas promove o aumento da síntese proteica e a aceleração da regeneração celular cutânea. Muitas contêm níveis elevados de aminoácidos essenciais, semelhantes a leguminosas e ovos.

     Vitamina A, C e E também são encontradas nas algas em quantidades úteis, e também são uma das poucas fontes vegetais de vitamina B12. Para os vegetarianos e para os que consomem pouca ou nenhuma carne ou peixe, as algas marinhas podem ajudar a reabastecer ou a manter as reservas de ferro. A ingestão regular de algas pode também ajudar a combater a anemia. Maior parte das algas marinhas é rica em ómega-3, um nutriente essencial com inúmeros benefícios à saúde, incluindo a redução do colesterol e melhoramento da saúde do coração. Enquanto os seres humanos obtêm a maior parte do ómega-3 através da ingestão de peixes marinhos, as preocupações com a sustentabilidade promoveram a que algumas empresas explorassem estas algas e outras como fonte mais viável destes nutrientes.

     As algas marinhas são uma das maiores “jóias do mar”. São organismos que crescem em água salgada e tal como as plantas terrestres necessitam de luz solar para prosperar. Existem inúmeras variedades de algas, sendo classificadas a partir da sua coloração, podendo ser designadas algas verdes, vermelhas ou castanhas. Cada alga é única na sua forma, sabor e textura. Apesar da abundância de algas na costa portuguesa, o uso destas na alimentação não tem grande tradição em Portugal, excepto para algumas comunidades costeiras nos Açores. Nestas comunidades, algas como Porphyra leucostica, conhecida como “erva-patinha” ou “erva do calhau”, e Nemalion helminthoides geralmente chamada de “esparguete da costa” são exemplos de algumas algas consumidas nesta região.

Erva-patinha (Porphyra leucostica
      É uma alga laminar, translúcida e mucilaginosa ao tacto, de contorno circular ondulado, podendo atingir comprimentos de 5 a 17 cm. A sua fixação ao substrato faz-se através de um pequeno disco situado no centro da lâmina, Ainda que prefira as zonas expostas, esta alga surge em todo o patamar mediolitoral. Quando os exemplares abundam, chegam a formar uma grande pele escura e brilhante sobre as grandes rochas, na zona costeira. Pela sua riqueza mineral e proteica, sabor intenso, aroma característico e textura suave, a “erva-patinha” é uma das algas mais apreciadas e a de mais elevado preço. Os espécimes do género Porphyra destacam-se pela sua grande riqueza em aminoácidos e de boa digestibilidade. É excepcionalmente rico em provitamina A, superando as hortaliças e, também, os mariscos e peixes. Os valores de vitamina B12 são também muito elevados nesta alga (29 g por cada 100 g de alga). A Porphyra tem uma baixa percentagem em gorduras e estas são de grande valor nutritivo pois, mais de 60% das mesmas, são ácidos gordos polinsaturados ómega 3 e ómega 6. É indicado para pessoas com falta de visão, especialmente visão noturna. Para além disso protege e nutre a pele e as mucosas. São plantas anuais e sazonais, que só ocorrem no final do Inverno e Primavera. São características do limite superior da zona das marés, onde podem formar mantos de pequena extensão. São abundantes em algumas ilhas (Flores, Faial, São Miguel) e ocasionais em outras, mas estão presentes em todo o arquipélago. São coletadas em algumas ilhas e utilizadas na preparação de alguns pratos, tais como sopas, tortas, pataniscas.

Figura 1 - "Erva-patinha".
Figura 2 - "Erva-patinha".
     
    Esparguete da costa (Nemalion helminthoides) 
    É uma alga vermelha, de cor castanho-avermelhada, constituída por uma pequena estrutura basal discóide. O seu talo cilíndrico faz lembrar esparguete, característica que originou o nome “espaguete da costa”. Ocasionalmente pode apresentar uma ramificação dicotómica e os ramos possuem entre 0,5 a 5 mm de espessura. Desconhecido nos países asiáticos, é cada vez mais valorizada na Europa, tanto nos restaurantes como nas padarias especializadas. Já há vários anos se fabricam empadas, pizas, massas, patês, pães, aperitivos fritos e latas de conserva, visto que o seu sabor faz lembrar alguns cefalópodes (chocos e sépias). É uma das algas com mais sucesso entre as espécies atlânticas e, ao mesmo tempo, uma das mais baratas, devido à sua grande biomassa e facilidade de recolha nas zonas costeiras. Pela sua excelente riqueza nutritiva, pela sua consistência carnosa e paladar suave, o “esparguete da costa” cresce no limite superior do mediolitoral em todo o arquipélago. É uma espécie anual e sazonal que ocorre na Primavera.

segunda-feira, 10 de Março de 2014

Apanhada a maior lula-mansa de sempre?



No passado mês de janeiro foi apanhada uma enorme lula-mansa (Loligo forbesii) na ilha do Pico com pouco mais de 9 kg de peso. Apesar de a lula-mansa dos Açores atingir maiores dimensões que as suas congéneres continentais, esta lula em particular, tinha dimensões apreciáveis.




Ocorrência:
No passado dia 24 de Janeiro de 2014 este exemplar (Fig. 1) foi observado à venda no hipermercado na Madalena, na ilha do Pico. Tratava-se de um indivíduo de dimensões fora do comum. Tirou-se uma fotografia para a sua posterior análise. Este indivíduo foi rapidamente identificado como Loligo forbesii (lula-mansa), devido às suas típicas riscas na parte anterior do manto. Este exemplar é de certeza um macho, dado que na espécie local estes são muito maiores do que as fêmeas. Este exemplar foi capturado pelo Mestre Francisco José Bettencourt, fora de São João do Pico à profundidade aproximada de 165 m, com uma toneira comercial de duas coroas.
Esta lula tinha um peso em fresco (húmido) de 9,015 kg. O comprimento do animal foi calculado através da fotografia (Fig. 1), para isso recorreu-se ao software gráfico “Arc Gis”. Como escala, foi utilizado a distância interna de bordo a bordo da bancada (98,5 cm). Efectuaram-se duas medições da qual resultou uma média de 99,83 cm param o comprimento dorsal do manto.


Figura 1 – Exemplar de Loligo forbesii fotografado na peixaria do hipermercado da Madalena do Pico.
Casos Anteriores:

Ao compararmos estes valores com os valores máximos registados para o comprimento e peso desta espécie, 93,7 cm[i] e 6,230 kg[ii], respectivamente, verificamos que estamos perante um novo recorde. É verdade que há testemunhos de lulas-mansas de maiores dimensões, mas não existe nenhum registo que o possa comprovar.

Pesca:
Nos Açores a Loligo forbesii ou lula-mansa, como é vulgarmente conhecida, é uma fonte importante de rendimento dos pescadores quando as quotas dos peixes de fundo são atingidas. Inicialmente esta pesca alimentava apenas os mercados locais mas posteriormente deu-se a abertura para o mercado continental. A pesca de lula-mansa nos Açores tem uma longa tradição, embora não se saiba a sua origem. A pesca é praticada em todas as ilhas do Arquipélago dos Açores e realiza-se normalmente durante o dia. Para a sua captura utiliza-se várias artes de  pesca, sendo a mais comum a toneira (Fig. 2), que consiste numa amostra com uma ou duas coroas de agulhas virados para cima. Ao produzir-se movimentos verticais, o chamado de “jigging”, a lula é atraída. Ao atacar a amostra a lula fica presa pelos tentáculos nas agulhas e por vezes pelos braços também.


    Figura 2 - Exemplo de toneira utilizada na faina da lula


Curiosidades:
À semelhança dos outros cefalópodes, possuem simetria bilateral, olhos bem desenvolvidos, a boca é redonda com um par de poderosas mandíbulas móveis, em forma de "bico de papagaio", que podem cortar e rasgar a presa. Possuem 8 braços e 2 tentáculos que utilizam para capturar alimento. A pele contém células pigmentadas, chamadas cromatóforos, que mudam de cor para efeitos de comunicação e camuflagem. Graças ao seu sistema nervoso extremamente desenvolvido estes animais maravilham-nos com uma multidão de cores e padrões. São animais carnívoros, alimentando-se principalmente de pequenos peixes, na sua dieta também consta crustáceos e outros invertebrados, e como acontece nas outras lulas, esta também exerce canibalismo. A sua distribuição geográfica abrange o Atlântico Nordeste, Mar Mediterrâneo e Mar Vermelho, a costa Este de África e tem como fronteira Oeste os Açores. Esta espécie possui dimorfismo sexual, sendo os machos de maiores dimensões que as fêmeas, atingem a sua maturidade sexual com cerca de um ano de vida e possuem uma longevidade pequena, entre 1-2 anos, podendo atingir os 3 anos de idade.
A população desta espécie dos Açores está também geneticamente diferenciada da população continental europeia, e por isso há quem considere que possa ser uma sub-espécie.


Agradecimentos:
Um agradecimento especial ao Doutor Professor João Gonçalves pela ajuda a estabelecer contactos e pelo fornecimento de informação.
 Queria agradecer também ao Sr. Rui Pires da peixaria do “Compre Bem” da Madalena, pelo fornecimento de dados e ao mestre Francisco José Bettencourt pela disponibilidade para responder às questões colocadas.


Para saber mais:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lula-mansa
 


[i] Porteiro, F.M.; Martins, H.R. 1994. Biology of Loligo forbesii Steenstrup, 1856 (Mollusca: Cephalopoda) in the Azores: sample composition and maturation of squid caught by jigging. Fisheries Research. 21: 103-114.

[ii] Martins, H.R. 1982. Biological studies of the exploited stock of Loligo forbesii (Mollusca: Cephalopoda) in the Azores. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom, 62: 799-808.