terça-feira, 12 de junho de 2012

Camarões pistoleiros



Camarões pistoleiros!
Cuidado com os seus tiros!
Numa manhã do passado janeiro (28/01/2012), durante a baixa-mar, os Srs. Mário Oliveira e Dejalme Vargas, andavam a apanhar minhoca para a pesca na zona entre marés (intertidal) da costa do Pasteleiro, por baixo do forte de S. Sebastião (costa S da ilha do Faial), quando depararam com um par de estranhos camarões por baixo de uma pedra, que acabaram por recolher e entregar no semanas depois no DOP para saberem do que se tratava. Chamou-lhes a atenção uma pinça grande e deformada que ambos tinham.
Estes exemplares foram-nos entregues secos e só durante o passado mês foi possível dar a devida atenção a esta ocorrência. Para melhor serem identificados, hidrataram-se em água durante uma noite e procedeu-se à sua identificação e biometria básica (comprimento e pesagem) no dia seguinte (18/05/2012).
Tendo em conta o guia FAO (1987) verificou-se que se tratava de um par de pequenos camarões da espécie Alpheus dentipes (uma fêmea ovada e outro indivíduo de sexo não identificado) e uma pinça maior perdida por um terceiro indivíduo.

 Foto – 1. Par de camarões pistoleiros apanhados na costa do Pasteleiro (Faial) em 28/01/2012 juntamente com a pinça de outro indivíduo. O indivíduo da esquerda é uma fêmea ovada.

 Foto - 2. Pormenor da fêmea, apresentando alguns ovos já com olhos visíveis no abdómen (seta vermelha).
Foto – 3. Pormenor da pinça (quela) hipertrofiada de um terceiro camarão-pistoleiro apanhada no mesmo dia dos anteriores. Esta pinça é altamente especializada capaz de produzir sons e jatos de água de grande intensidade, que utiliza para defesa e para captura de presas.

 Estes camarões não têm nome vulgar em português, mas poderiam designar-se por camarões-pistoleiros, à semelhança do nome em inglês “pistol-shrimp” ou “snapping-shrimp”. Têm uma característica ímpar, com a pinça hipertrofiada, que parece deformada em comparação com as pinças habituais dos caranguejos e camarões, produzem um estalido sonoro muito intenso, acompanhado por um jato de água de tal intensidade, tal como se fosse um disparo de uma arma de fogo. A produção deste estalido, feito pelo fechar super-rápido da pinça, dura apenas 1 milésimo de segundo, e por um processo de cavitação produz um jato de água que atinge praticamente os 100 km/h, e com uma intensidade de som que ronda os 200 db. Esta energia acústica é de tal modo intensa que acaba por aumentar a temperatura da água do jato de água para valores muito elevados. O impacto deste jato e a onda sonora são suficientes para atordoar ou matar as pequenas presas que passam ao seu alcance e das quais se alimenta. Pessoas que têm camarões deste grupo em aquários descrevem a sensação pouco agradável de ser atingido por este jato como se fosse o impacto de um vulgar elástico de borracha, quando puxado e largado rapidamente.  
Este tipo de camarões estão geralmente escondidos debaixo de pedras, ou em buracos que os próprios escavam. Algumas das espécies têm associações com pequenos peixes gobídeos, que vivem no mesmo buraco. O peixe, com melhor visão, serve de alerta ao camarão contra predadores e por sua vez beneficia do abrigo na toca que o camarão faz, mantém e lhe serve de refúgio.
Nos Açores existem 3 espécies de camarões deste género Alpheus, todos registados na ilha do Faial, mas é de crer que ocorram em todas as restantes ilhas do Arquipélago.
Dados dos animais capturados:
                                                                               Fêmea                                 Indivíduo 2
Comprimento máximo (mm)*                                  29,1                                         33,7
Comprimento da carapaça (mm)                              9,1                                         10,3
Peso (em álcool) ( g)                                                 0,33                                          0,49
* Medidos com o corpo estendido e sem as antenas que se perderam.
Os animais guardaram-se em etanol a 96% para coleção e futuros estudos.
Para saber mais:

terça-feira, 5 de junho de 2012

Uma tartaruga no meio do canal Faial-Pico

No dia 1 de Junho de 2012, por volta das 13h, a embarcação José Azevedo pertencente ao Peter Café Sport, regressava já para a Horta depois de mais uma saída para Whale Whatching, quando a meio do canal Faial-Pico encontraram uma tartaruga da espécie Caretta caretta. Esta foi retirada da água pela tripulação e segundo eles, a muito custo, pois esta estava presa com alguns cabos à volta da sua carapaça. Já a bordo, a tartaruga foi trazida para terra e posteriormente foi chamada a aluna de Mestrado do DOP, Ana Besugo, que se encontra a fazer a sua tese sobre tartarugas marinhas. Chegada ao local, Marina da Horta, a Ana procedeu à verificação do estado de saúde da tartaruga e de seguida procedeu-se à recolha das medidas (comprimento e largura total da carapaça e peso), algumas fotografias, amostras dos organismos que vivem associados às tartarugas marinhas (denominados epibiontes) e por fim à sua marcação, que consiste na colocação de uma anilha metálica em cada barbatana anterior. 

Dados da tartaruga    

comprimento total (curvilíneo) da carapaça: 73,5 cm
largura total (curvilíneo) da carapaça: 66,5 cm
peso: 52,200 Kg
anilha barbatana direita: PA 278
anilha barbatana esquerda: PA 277


Foto: Ricardo Fernandes

Epibiontes:
Após análise em laboratório das amostras recolhidas quer da carapaça quer da zona do corte que a tartaruga apresentava do lado direito da carapaça, podê-se identificar:
Carapaça:
- 3 espécies de algas verdes
- 2 espécies de algas vermelhas
Zona do Corte:
- restos de pele morta com areia e restos de pequenos búzios, assim como de restos de cracas
- restos de espécies quer de algas vermelhas quer de algas verdes
- restos de poliquetas 

Colaboradores da recolha de dados, fotografias, transporte e libertação da tartaruga: Rui Correia, Ricardo Fernandes, João Reis, Catharina Pieper, Dani Fox e Jairo.


Foto: Rui Correia


Publicado por: Ana Besugo